O Governo angolano aprovou uma garantia soberana de 100 milhões de dólares para subsidiar a cesta básica e travar a subida dos preços dos produtos essenciais. A medida, destinada a aumentar a oferta de arroz, açúcar, óleo alimentar, farinha de trigo e massa, surge num contexto de agravamento da insegurança alimentar no país.
Mas a decisão está a gerar forte polémica. A oposição acusa o Executivo de favorecer interesses privados e de usar o subsídio como instrumento político, a pouco mais de um ano das eleições gerais de 2027.
Dúvidas da oposição
A garantia estatal foi atribuída à empresa VC Horizonte 21, responsável pela aquisição e distribuição das cestas básicas.
Para Joaquim Nafoia, vice-primeiro-ministro do “governo sombra” da UNITA, o maior partido da oposição, os 100 milhões podem servir para alimentar redes de favorecimento.
“Este é um valor que o Presidente da República vai entregar aos seus amigos do partido, aos seus amigos importadores”, criticou Nafoia, temendo que a iniciativa não tenha impacto real no combate à fome.
A crítica surge num país onde a desnutrição permanece alarmante: Mais de 22% da população enfrenta falta de alimentos, e quase metade das crianças menores de cinco anos (47,7%) sofre atrasos no crescimento.
Para Manuel Fernandes, presidente da CASA-SE, o problema da fome não se resolve com compras de “última hora”, mas sim com políticas económicas estruturais que aumentem a produção agrícola e criem emprego.
“Ficaríamos satisfeitos se nos dissessem que é uma garantia soberana para potenciar o setor agrícola e maximizar a produção interna”, afirmou, defendendo que o país precisa de fortalecer a economia real.
Também a UNITA sugere que Angola deveria procurar ajuda externa e melhorar o ambiente de negócios, em vez de depender de importações financiadas pelo Estado.
Acusações de “corrupção eleitoral”
Com as eleições de 2027 no horizonte, a oposição vê na medida um potencial instrumento político. Manuel Fernandes defende que o Governo pretende transmitir uma sensação artificial de melhoria social.
“Esta garantia soberana permite colocar produtos da cesta básica à disposição dos cidadãos para vender uma ilusão de estabilidade, num exercício que se enquadra na corrupção eleitoral”, acusou.
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Para alguns analistas, o subsídio mostra que o Executivo reconhece finalmente a gravidade da crise alimentar. O politólogo Anselmo Kundumula lembra que o Presidente João Lourenço havia relativizado publicamente a existência de fome no país.
“Não foi há muito tempo que o ouvimos dizer, de forma irónica, que a fome era relativa, quando a realidade mostrava precisamente o contrário”, sublinhou Kundumula.
Fome estrutural continua sem solução à vista
Apesar do investimento avultado, persistem dúvidas sobre se o subsídio será suficiente para aliviar uma situação considerada crónica por várias organizações internacionais. Os críticos alertam que, sem reformas profundas no setor agrícola, logística, infraestruturas e ambiente de negócios, o país continuará dependente de importações e vulnerável a choques económicos.
O Governo, por sua vez, insiste que a medida é urgente e necessária para proteger as famílias. Resta saber se os 100 milhões de dólares terão impacto real no prato dos angolanos ou se alimentarão novas disputas políticas num país marcado por fortes desigualdades sociais.