Luanda foi, esta semana, palco de dois encontros entre o chefe de Estado angolano, João Lourenço, e o seu homólogo e vizinho congolês, Félix Tshisekedi. Em cima da mesa estiveram as discussões sobre o conflito no Leste da República Democrática do Congo (RDC), que continua a ameaçar a estabilidade regional.
Em entrevista à DW África, Osvaldo Mboco, analista angolano de relações internacionais, comenta as visitas, esta semana, de Félix Tshisekedi a Luanda, levando na bagagem o dossiê do conflito no Leste da RDC. Segundo ele, “não há condições para que Angola regresse à mesa de negociações, porque não tem aceitação de ambas as partes envolvidas no conflito”, afirma.
O analista acredita que Kinshasa poderá estar a tentar “namorar” Luanda para obter algum tipo de apoio militar, com vista a enfrentar o avanço das ofensivas do Movimento 23 de Março (M23). No entanto, mesmo assim, ele não acredita que o líder congolês, Félix Tshisekedi, consiga convencer Lourenço a dar esse apoio, pois, segundo diz, “o Estado angolano tem mantido uma postura de cautela no apoio militar”.
Osvaldo Mboco: Eu não penso que o Estado angolano estaria a voltar para a mediação. E como deve calcular, a imagem da Angola saiu chamuscada desse processo. À medida que enquanto Luanda esperava as delegações da República Democrática do Congo (RDC) e do M23, esse último não veio para Luanda, mas reuniram-se em Doha, sem um aviso prévio para o Estado angolano. Isso pôs em xeque a imagem da Angola.
DW África: O que é que terá mudado, então? Sabemos que, no ano passado, o próprio presidente angolano disse que a Angola estava a sair da mediação…
OM: O que nós temos que perceber é o discurso político na altura da comunicação final, e outra coisa são os entendimentos. Ou seja, não existem condições factivas nessa altura de Angola voltar à mediação. A mediação pressupõe duas aceitações pelas partes beligerantes.
RDC: “Pode voltar a haver uma guerra forte” na região
DW África: O que não parece e o caso agora, pois o Ruanda tende a não confiar em Angola?
OM: Claramente, é por isso que eu disse que não há condições para que a Angola regresse a esse processo de mediação – porque não tem aceitação por parte do Ruanda. A intervenção do presidente Paul Kagame, ao nível do acordo de paz que foi assinado em Washington, por nenhum momento citou e parabenizou os esforços feitos por Angola.
E o presidente foi mais distante ao dar nota que o que estava acontecendo em Washington era um acordo equilibrado, um acordo sem tirar partido, a dar nota que todo o trabalho que foi feito anteriormente foi um trabalho inclinado em função dos interesses também da RDC. Então, se o presidente Kagame, que é uma peça central desta resolução, não tiver confiança no Estado angolano, não vai adiantar nada. Angola pode fazer qualquer coisa que não vai produzir resultados factíveis, só vai se desgastar. Agora, o que pode ter acontecido é que o presidente [Félix] Tshisekedi aconselhou-se com o seu homólogo João Lourenço para a paz a nível do leste da RDC.
DW África: Será isso que justifica estas idas e voltas de Tshisekedi para Luanda?
OM: Tshisekedi quer um outro envolvimento do Estado angolano. Não se sabe se quer assistência militar, apoio logístico-militar ou se quer tropas no terreno angolano. Mas esses elementos que eu acabei de citar, dificilmente o Estado angolano vai abraçar, porque esse tem tido uma postura muito cautelosa relativamente a apoios militares. E se forem essas as intenções de Tshisekedi… Porque esse percebeu que a paz estava muito mais próxima e os acordos assinados em Luanda beneficiavam muito mais a RDC do que nessa nova configuração.
DW África: O que é que falhou nestes acordos de Doha e de Washington?
OM: O que acontece é o seguinte: os norte-americanos não estão muito interessados na estabilidade da RDC, mas estão muito mais interessados naquilo que é, sem sombra de dúvida, os mineiros da RDC – desde que os interesses norte-americanos instalados nesse país africano funcionem, mesmo com essa estabilidade. Agora, se os interesses dos EUA não funcionarem – mesmo com a estabilidade – aí sim vamos ver os americanos a tomarem uma outra posição.