Há discursos que parecem feitos para impressionar o mundo… e há realidades que já não conseguem enganar nem o próprio povo. Quando se fala de uma “selva global”, onde potências lutam por recursos, a pergunta inevitável é simples e incómoda: e dentro de casa, que tipo de selva estamos a construir?
Por Mwata Santos
Há dias li uma notícia em que o chefe do zé-cu-tivu angulanu nos brindava com a reflexão de que o mundo actual se transformou numa “selva”, onde as grandes potências recorrem a intervenções militares para garantir o controlo de recursos estratégicos, repetindo a lógica do colonialismo.
Bonito… Coerente… Até convincente… se não olharmos para dentro.
Só que cá dentro, a lógica não é muito diferente. Também se faz guerra para controlar tudo, só que contra o próprio povo: fome, educação deficiente, insegurança pública, repressão e medo. Só muda o método. Não há mísseis, não há invasões estrangeiras, não há tropas a cruzar fronteiras. Mas há controlo. E é um controlo fino, contínuo e eficaz. Uma guerra sem tiros, mas com vítimas todos os dias.
E talvez seja isso que mais inquieta: o caos já não é apenas consequência… tornou-se ferramenta.
Quando o transporte para, o povo sufoca. Quando o preço sobe, o silêncio desce. Quando há desordem, surge a justificação perfeita. E, de repente, aquilo que parecia desorganização começa a parecer… conveniente.
Cria-se caos para controlar o poder.
Cria-se através da fome que não passa.
Cria-se através de escolas que não formam.
Cria-se através de hospitais que não curam.
Cria-se através de repressão que não se explica.
E quando o povo está cansado, faminto e desorientado, aceita quase tudo, até o que ontem rejeitaria.
É aqui que o jogo fica perigoso. Porque o caos, quando bem explorado, legitima medidas que em tempos normais seriam inaceitáveis. E, de repente, até a ideia de um estado de excepção deixa de parecer absurda… O Estado de Sítio deixa de ser cenário distante para se tornar possibilidade prática.
Mas enquanto isso, há uma outra contradição que salta aos olhos e que o discurso oficial raramente explica.
Fala-se de potências estrangeiras que exploram recursos.
Mas quem assina os contratos?
Quem gere os recursos?
Quem decide para onde vai o dinheiro?
A verdade incómoda é esta: não são apenas as potências que levam, há entre “nós” quem entregue.
Enquanto o povo luta pelo básico, há fluxos silenciosos que seguem noutra direcção. Contas no exterior. Compras em lojas no estrangeiro. Investimentos lá fora. Vidas confortáveis longe do desconforto que se governa cá dentro.
E, no meio disso tudo, encena-se o espectáculo.
Visitas ilustres. Fotografias estudadas. Sorrisos diplomáticos.
Um antigo presidente que passa e acena, uma selecção campeã que pisa o relvado, um actor de Hollywood que distribui carisma, um líder religioso que abençoa multidões.
Eventos que brilham. Momentos que projectam. Imagens que circulam.
Mas, no silêncio entre um aplauso e outro, fica a pergunta que não entra na fotografia:
O que mudou na vida de quem voltou para casa sem pão?
Resolveu-se a fome?
Diminuiu o desemprego?
Devolveu-se dignidade às filas intermináveis dos hospitais?
Ou foi apenas mais um capítulo de uma narrativa onde a aparência se sobrepõe à substância?
No fim, o povo começa a perceber. Pode não dizer alto, pode até rir em tom de brincadeira… mas percebe.
E quando um povo começa a perceber o jogo, duas coisas podem acontecer: ou muda o rumo… ou o sistema aperfeiçoa o controlo.
A grande questão é: em que ponto estamos nós?
Porque há uma linha muito ténue entre governar um povo… e mantê-lo refém.
E talvez o maior erro de quem está no poder seja acreditar que o silêncio é ignorância, quando, muitas vezes, é apenas observação.
Precisamos repensar Angola. É urgente!
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