A Igreja Católica angolana pede “corações abertos” para escutar a mensagem que Leão XIV trará a Angola, para que o país não perca mais uma ocasião para recomeçar, sobretudo quando se aproxima mais um acto eleitoral. E assim sendo, como aconteceu com as visitas anteriores de outros Papas, o MPLA faz um intervalo na corrupção, nos roubos, nas violações dos direitos humanos…
Em entrevista à Lusa, D. António Francisco Jaca, bispo de Benguela e responsável da Comissão Episcopal da Cultura e da Comunicação Social da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, salientou que o Papa “conhece bem os problemas” de Angola, sobre os quais se espera que se pronuncie. E, depois, o MPLA vai tomar aquela coisa que tira os pecados dos homens, as hóstias, e em sintonia com os cânones da Igreja Católica vai dizer: “Olhai para o que dizemos e não para o que fazemos”. E, nessa altura, a hierarquia católica angolana dirá: Ámen.
“Esperamos sobretudo que, tanto os políticos, como os que estão no mundo da economia, possam escutar com ouvidos de ouvir. Porque, de facto, não é só o Papa falar, o importante é que haja corações abertos para escutar, porque são conselhos, linhas de orientação, pistas que podem ajudar e ajudam certamente a abrir novos caminhos, novos rumos”, declarou.
Salientando – o que é verdade – que Angola (nas mãos do MPLA há 50 anos) tem “perdido muitas belas ocasiões para recomeçar”, António Jaca lembrou que o facto de se aproximar um novo acto eleitoral, em 2027, é mais uma oportunidade para se “pensar primeiro no país e depois é que vêm os partidos (…) e os interesses pessoais”.
“A questão da economia deste país tem de ser repensada, de tal maneira que se separe a política da economia, se separe a política da administração, de tal maneira que não se misturem cargos públicos com filiação partidária, mas que sejam exercidos pela competência, pelo mérito”, declarou, realçando que esta “tem sido a tónica da Conferência Episcopal há muitos anos”.
António Jaca mostrou-se convicto de que este será certamente um tema no encontro do Papa com os partidos políticos e a sociedade civil e também nas homílias, onde “não deixará de falar da questão da justiça social, dos direitos humanos, do progresso (…), temas que a igreja aborda há muito”, pois não está presa “a opções políticas e partidárias” e visa “o bem estar de todos”.
Aos angolanos, pediu um acolhimento “sem preconceitos, sem atitudes defensivas”, pois o Papa “vem confirmar os cristãos na fé, deixar a esperança para todos e mostrar o seu amor pelo continente africano na sua primeira grande viagem apostólica”.
Sobre o lema escolhido por Leão XIV para a visita a Angola, “Peregrino da Esperança, da Reconciliação e da Paz”, o bispo considerou que “vai ao coração das preocupações dos angolanos”, lembrando que “a paz não é só ausência de armas, também é desenvolvimento e é também paz social”.
Para D. Jaca, a questão da reconciliação continua a ser “importantíssima”, não só porque Angola ainda está “a braços com muita criminalidade, pobreza, miséria”, mas também por persistir “uma espécie de bipolarização da sociedade”, com os partidos que estiveram em conflito (MPLA e UNITA) a revelarem alguma “intolerância política”, e por “aspetos culturais que têm surgido ultimamente”, como crenças na feitiçaria, violência doméstica ou “atos de barbárie de violação de menores”.
“Nós estamos à procura da reconciliação entre os antigos beligerantes, mas também de toda a sociedade, que deve sentir-se unida, mais fraterna”, salientou.
O bispo de Benguela disse que a Igreja Católica em Angola “está num crescimento muito grande”, com mais de 1.600 sacerdotes, mais de 3.000 religiosas e mais de 3.000 seminaristas, muito jovens, sendo um o país que na África Austral tem “um lugar privilegiado”.
Segundo disse, sendo a esmagadora maioria da população angolana cristã (mais de 90%), cerca de metade são católicos, religião que, realçou, tem apostado numa acção social “visível, presente”.
“Não se pode ignorar em Angola a força e a presença da Igreja Católica”, frisou.
BISPOS DE BARRIGA CHEIA FALAM DA FOME DO POVO
O bispo de Saurimo, José Manuel Imbamba, considerou que mais do que “a euforia dos 50 anos de independência” de Angola, o jubileu deveria ser um momento de reflexão, porque “muitos problemas” que se deviam resolver com a independência não estão ainda resolvidos.
Em declarações à Lusa, José Manuel Imbamba disse que “o jubileu de 50 anos deve ser um jubileu de viragem, de um novo recomeço do país e de reflexão. Mais do que vivermos a euforia da festa em si, é um momento de reflectirmos, porque muitos problemas que a independência devia resolver, ainda não resolveu”.
Para o bispo, também presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), é preciso que os angolanos se sentem e analisem porque é que Angola libertada há 50 anos (sempre nas mãos do MPLA, recorde-se) “ainda continua prostrada, ainda continua a não saber dar o melhor para os seus filhos e filhas, ainda não consegue unir os seus filhos, ainda não consegue ter uma linguagem comum de nação”.
Questionado sobre o que seria já alcançável nestes 50 anos de independência e ainda não foi, o presidente da CEAST enumerou “a vitória sobre a pobreza, a intolerância, a discriminação partidária, as assimetrias sociais e culturais que ainda existem”.
“É muita coisa que tínhamos que já ter ultrapassado, mas que ainda nos colocam de costas viradas para o futuro”, citou.
José Manuel Imbamba disse que a igreja como “um instrumento de salvação, que abre consciências, abre inteligências” jogou um papel fundamental “na criação do próprio nacionalismo antes da independência”.
“Basta ver que os fundadores dos movimentos de libertação de Angola todos são filhos de igrejas, protestantes e católicos”, referiu.
O bispo destacou ainda que “o anúncio do Evangelho é por si libertador e por isso a igreja jogou um papel muito importante, nesta luta pela independência, pela liberdade e continua a fazê-lo”.
Segundo José Manuel Imbamba, a independência é um trabalho contínuo, de afirmação, de desenvolvimento, de satisfação, de construção do bem comum e de elevação da dignidade da pessoa humana.
“Por isso, é um trabalho contínuo que continuamos a fazer como Igreja. E, neste quadro concreto, muitos padres, muitos cristãos, deram o melhor de si para que Angola pudesse hoje ascender à independência e assim poder viver como um país soberano”, afirmou.
Foi nesse contexto que a Igreja organizou o Congresso Nacional da Reconciliação, com o objectivo de “na diversidade política, social e cultural”, olhar para Angola enquanto “casa de todos”.
“Por isso, nós não queremos só ficar na exaltação pela exaltação, mas fazer o exame de consciência, para ver se de facto o meu contributo como cidadão está a ser útil e fecundo para o bem do país que nós queremos construir, por isso é orando, é reflectindo, auto criticando-nos para assumirmos um compromisso sério e responsável pela nação e por todos angolanos”, frisou.
Olhar para os próximos 50 anos de Angola “é um sonho” que “nunca deve ser pessimista”, observou o bispo.
“Nós somos a esperança, e a esperança leva-nos exactamente a essa realidade nova, a esta Angola nova, esta Angola irmanada, Angola desenvolvida, Angola de paz, Angola onde todos nós nos sintamos úteis e necessários para a sua a formação de construção contínua”, disse José Manuel Imbamba, a propósito do futuro do país nas próximas cinco décadas.
Recorde-se que os bispos católicos angolanos manifestaram-se no dia 17 de Setembro do ano passado preocupados (quem diria não é senhores prelados?) com o agravamento da pobreza em Angola (o reino que o MPLA gere há 50 anos “só” tem 20 milhões de pobres), considerando que os tumultos registados em 2025 revelaram buracos sociais, familiares e institucionais muito profundos” que devem despertar o país para “urgente transformação”.
Na sua qualidade de presidente da CEAST, José Manuel Imbamba, afirmou que “não podemos fechar os olhos à realidade do nosso país, marcada ao mesmo tempo por avanços significativos e recuos assustadores. No meio de tantas coisas boas e dignas de aplausos que temos vindo a fazer, assistimos, todavia, com preocupação, à persistência e ao agravamento da pobreza das famílias angolanas, um flagelo que atinge a dignidade de muitos dos nossos concidadãos”.
Para o arcebispo angolano, a pobreza em Angola, “infelizmente, não é apenas material”, mas “é também, e sobretudo, social, política, cívica, cultural e espiritual, minando a confiança nas instituições e no futuro”. Por culpa de quem? João Lourenço garante que o “MPLA fez mais em 50 anos do que os portugueses em 500”…
Na altura, em declarações na abertura da II Assembleia Plenária da CEAST, que decorreu no Santuário da Muxima, Diocese de Viana, José Manuel Imbamba referiu que a sociedade angolana, maioritariamente jovem, é marcada por um “acentuado estado de ansiedade, medo, incerteza e frustração”.
Assinalou também que a situação deriva da falta de emprego, de iguais oportunidades e das assimetrias abismais que ser registam em Angola. Isto porque, recordamos nós, o MPLA fez com que Angola, um país rico, em vez de produzir riqueza tenha produzido milionários.
“A instabilidade social e a falta de perspectivas para os jovens têm gerado um sentimento de desesperança e irreverência”, salientou o religioso, para quem os tumultos “revelaram buracos sociais, familiares e institucionais muito profundos”.
“Esses tumultos devem despertar-nos e empenhar urgentemente na transformação interior, para que o diálogo entre os governantes e governados seja mais frequente, justo e frutuoso, evitando o uso exagerado e desproporcional da força”, apelou.
José Manuel Imbamba (condecorado por João Lourenço com a medalha Paz e Desenvolvimento) recordou que o país celebrou os 50 anos de independência, um momento que considerou propício para uma mudança urgente e necessária de atitudes e de mentalidade.
“Não basta mudar e renovar as estruturas, é preciso mudar, sobretudo, o coração e a mente das pessoas (…). Daí, o exame de consciência nacional que se impõe enquanto famílias, governantes, legisladores, magistrados, políticos, jornalistas, funcionários, intelectuais, religiosos e cidadãos”, notou.
Segundo o presidente da CEAST, Angola, com toda a exuberância do mosaico cultura que os seus filhos e filhas ostentam, “merece este compromisso co-responsável” que implica a incorporação contínua, corajosa e dedicada de atitudes transformadoras, motivadoras e enriquecedoras.
No seu olhar sobre a realidade sociopolítica e económica do país, o também arcebispo de Saurimo apelou à instauração, em Angola, de uma nova cultura social e política, baseada na ética, na solidariedade efectiva e na responsabilidade partilhada.
Observou, contudo, que, para isso, são necessárias “reformas profundas no aparelho do Estado, que deve estar exclusivamente ao serviço da cidadania e da prossecução do bem comum para a felicidade e dignificação de todos”.
“É nosso dever apelar e educar para a cultura da paz, da justiça, da reconciliação e da tolerância. As soluções não virão de fora, mas de um compromisso sério de todos nós, enquanto angolanos”, concluiu.
Visitado 5 times, 5 visitas hoje